1. O fim de uma espera

Enfim, o dia do IronMan chegou. Mas, para ser sincero, essa não foi uma espera de apenas seis meses — o tempo padrão de um ciclo de treinamento específico de uma prova de Ironman. Foi uma jornada de aproximadamente 5 anos. Nesse intervalo, a vida aconteceu: provas menores, travessias aquáticas, corridas, maratonas e quatro “meios” IronMans (Ironman 70.3). Cruzar essa linha de chegada não é apenas um feito fisiológico de resistência; é a conclusão de um projeto de vida que exigiu desconstruir problemas gigantescos em etapas minúsculas.

Dizem que o slogan da prova é “Anything is Possible” (Tudo é possível). Na prática, a gente sabe que não é bem assim, mas a mentalidade que você adquire no processo te faz acreditar que somos capazes de muito mais do que a nossa zona de conforto permite imaginar. É um sonho realizado que pretendo comemorar pelo resto da vida.
2. O preço que ninguém posta no Instagram
Antes de falar da glória, preciso falar do custo. E não me refiro ao valor da inscrição ou dos equipamentos, que são altíssimos. Falo do custo em qualidade de vida. Para entregar 12 a 16 horas de treino semanais, você se torna um ser antissocial. Minhas sextas-feiras terminavam às 21h para que eu pudesse encarar pedais de 5 horas no sábado de manhã. Acordar às 5h (ou antes) vira a regra para dar conta de tudo antes do trabalho.

Atenção: O IronMan é uma decisão que exige responsabilidade e, acima de tudo, a anuência de quem você ama. Sem o apoio da base — no meu caso, minha esposa, que segurou toda a estrutura do lar enquanto eu estava ausente treinando — esse sonho seria impossível.
3. O Race Report: A anatomia do dia
Abaixo, detalho como cada etapa se desenrolou. Foi um dia de gestão de recursos, superação de dores e algumas surpresas pelo caminho.

| Etapa | Distância | Tempo Oficial | Destaques |
|---|---|---|---|
| Natação | 3.8 km | 01:09:14 | Frio intenso, águas-vivas e desvio discreto de rota. |
| Ciclismo | 180 km | 06:47:32 | Ritmo constante, paisagens de Floripa e um “penalty box”. |
| Corrida | 42.2 km | 05:24:55 | Gestão de crise e dor no trato iliotibial. |
| Total | 226 km | 13:46:43 | IRONMAN FINISHER |
3.1. A Água: Entre o frio e as águas-vivas 🌊

O dia começou com um frio absurdo. Cheguei a tremer na transição, mas uma manta térmica improvisada ajudou a estabilizar. Na água, o tráfego era intenso. Em certo momento, achei que estava atravessando nuvens de algas, mas logo descobri que eram milhares de minúsculas águas-vivas. Graças a uma senhora em um caiaque que me gritou para corrigir a rota, fechei a natação bem abaixo da minha previsão de 1h15.
3.2. A Bike: O interminável e o inesperado 🚴♂️

Pedalar 180km exige paciência. O ritmo foi constante, mas o momento inusitado foi o penalty box. Tomei uma punição por um suposto “vácuo” enquanto conversava com meu amigo Leandro durante a prova. Resultado: os dois punidos! Faz parte do jogo. Fora isso, a hidratação e a nutrição (foram quase 8.000 calorias gastas no dia) funcionaram perfeitamente graças às orientações dos meus técnicos.
3.3. A Maratona: Onde o corpo pede para parar 🏃♂️

Os primeiros quilômetros foram no ritmo planejado, mas no km 25 a conta chegou. A dor no trato iliotibial esquerdo, que já me assombrava, voltou com força total. A partir dali, foi pura gestão de crise: corria 800 metros e caminhava 200 metros. O cardio estava sobrando, mas a mecânica estava falhando. Nessas horas, a energia do público e a presença da esposa e amigos em pontos estratégicos foram o que me impediram de desistir.
4. O que fica depois do pórtico

O IronMan é uma aula sobre resiliência e foco. Você aprende que qualquer grande problema pode ser resolvido se você o dividir em partes menores. Aprendi a valorizar cada minuto com a família e a importância de ter profissionais competentes ao lado, como meus coaches Márcio Soares e André Pellegrini, que entendem que não somos atletas de elite, mas profissionais liberais tentando encontrar equilíbrio no esporte.
Não tenho ideia de qual será o próximo desafio e, honestamente, não penso em repetir essa prova tão cedo. O que sei é que, com treino e determinação, conseguimos chegar a lugares que nunca imaginamos.
“A vitória não é apenas cruzar a linha, mas conseguir organizar a vida para chegar até a largada.”
E você? Já se meteu em alguma “enrascada” dessas por um objetivo pessoal? Qual foi o maior desafio — esportivo ou não — que você já enfrentou na vida? Compartilha aqui nos comentários, adoraria ler sua história.