
Há quatro anos, realizo uma prova de Ironman 70.3 por ano, já se tornou um ritual.
Essa história, no entanto, não começa com um sonho atlético, e sim com um susto. Veio com a segunda onda da pandemia, quando a UTI começou a receber pacientes mais jovens, obesos, e eu me vi ali, no espelho, como um candidato perfeito a ser o próximo. Uma guinada na vida era mais que necessária; era uma questão de sobrevivência.
Sempre achei difícil me motivar pela doença, por pensamentos como “preciso emagrecer para evitar um infarto”. O medo paralisa. Prefiro a abordagem do desafio: “E se eu mirasse em algo que nunca sonhei, algo que me forçasse a mudar tudo?”.
O triathlon foi a resposta. Para dar certo, ele exige uma nova rotina, uma nova vida. E quem entra nesse mundo, inevitavelmente sonha com o selo “Ironman”. O slogan, Anything is Possible, me atraiu como um ímã.
E assim foi. O primeiro em Fortaleza em 2022, o segundo em Maceió (2023) — minha melhor prova até então. Em 2024, treinei como nunca para Cartagena, no Caribe Colombiano mas o resultado foi o oposto. Demora na largada, pneu furado e o calor sufocante da cidade amuralhada, onde o ar não corre, as ruas se transformam numa panela de pressão, transformou a corrida final em um calvário. Cruzei a linha de chegada em frangalhos, e acredito que só o fiz porque, pela primeira vez, minha família estava lá, assistindo.
Aquilo ficou para trás, mas o fantasma daquela prova, não…
Ele me visitou na véspera do Ironman 70.3 de Florianópolis, este ano. O cenário era diferente: frio, um mar violento e a insegurança da performance anterior me assombrando. Passei um sufoco que só conhecia da minha primeira prova. Não conseguia dormir. Os pensamentos iam e voltavam, sempre parando na imagem das ondas, na possibilidade de a natação ser cancelada — o que, ironicamente, tiraria parte da graça do Triatlo.
Depois de duas horas e meia de luta, levantei. Peguei o mesmo bloco de notas que uso agora e comecei a escrever, a anotar cada pensamento que me afligia. E, na sequência, fui contra-argumentando, um por um, como se travasse um diálogo comigo mesmo. O que saiu foi mais ou menos isto:
O fantasma: “O sofrimento de Cartagena ainda me assusta.”
Eu: “Aqui não é Cartagena. Cada prova é uma prova.”
O fantasma: “Vi os caras mais novos e atléticos treinando. E eu com esse meu buchinho aqui. Me sentindo inferior.”
Eu: “Você não deve nada a ninguém. Você também treinou. Você vem fazendo isso há quatro anos.”
O fantasma: “A pressão dos outros por um bom desempenho me afeta.”
Eu: “Você é você. Poucos da sua idade e com a sua profissão fazem o que você faz. E essa prova é unicamente sua.”
O fantasma: “O frio e o mar agitado me deixam ansioso.”
Eu: “A natação pode ser cancelada, mas se não for, você tem a roupa de borracha e a segurança da prova. O frio é novo, mas pode até te ajudar.”
O fantasma: “Estou com medo de não dormir e isso arruinar tudo.”
Eu: “Seria ideal ter dormido, mas a situação é o que é. Você pode sair daqui vencedor se ajustar a mentalidade. Com ou sem sono.”
No meio daquele exercício, uma ficha caiu. Aquele grau de ansiedade era novo, e ele mostrava a importância que eu dava àquilo tudo. Percebi que aprender a lidar com ela, ali, naquele quarto de hotel, teria um reflexo positivo em toda a minha vida. A última anotação foi um comando: “Você se propôs a fazer isso. Relaxe, mentalize um final de dia vencedor e vamos pra cima.”

No fim das contas, a natação não foi cancelada. O mar estava realmente assustador e foi difícil, mas eu venci. No resto da prova, eu já não era o mesmo da noite anterior. Eu tinha a mentalidade para lidar com o que viesse. Terminei bem, com o mesmo tempo de Maceió, e me senti imensamente vitorioso.
De volta ao trabalho, conversando com a Renata, uma de nossas residentes, ela me contava sobre a preparação para a prova de título de Medicina Intensiva. A ansiedade dela era palpável e sua resignação também, “Dr, isso é o que eu tenho agora, a chance é essa, dificilmente vou parar pra fazer isso de novo mais na frente”, disse ela. No caminho para casa, a lembrança da minha noite em claro voltou com força. Que tipo de pensamentos estariam passando pela cabeça dos residentes?
Percebi que talvez não fossem muito diferentes dos meus 1 semana atrás.
Apenas o cenário mudava. No lugar do mar, uma sala de provas. No lugar dos atletas, os colegas de profissão. Aquele “fantasma” da véspera era o mesmo.
No dia da prova, enviei um texto a eles, adaptando o diálogo que tive comigo mesmo:
“Vi colegas que parecem mais preparados ou mais confiantes e me senti inferior.”
Vocês não devem nada a ninguém. Olhem para trás: os anos de residência, os plantões, as vidas que vocês tocaram, o conhecimento que absorveram na prática, no leito do paciente. Essa bagagem é única e ninguém pode tirar de vocês.
“A pressão por desempenho dos colegas e preceptores me afeta.”
Esqueçam o externo. Ninguém sabe do “corre” da vida de vocês. Essa prova é sobre você e sua jornada. Poucos escolhem e, mais importante, poucos chegam até onde vocês chegaram. O mérito já é imenso. Façam a prova para vocês.
“Uma questão inesperada ou um tema que não domino tanto pode me desestabilizar.”
Se uma questão não sair, respire fundo, pule para a próxima e volte depois. Uma questão não define a prova inteira.
“Estou com medo de não ter dormido bem e isso me atrapalhar muito.”
Seria ideal ter dormido, mas a realidade se impõe. A situação é o que é. A adrenalina do momento e, principalmente, a confiança no preparo, vão carregar vocês.
“Essa ansiedade toda é assustadora.”
Que bom que ela está aí! Essa ansiedade tem o tamanho da importância que vocês dão para o título de especialista.
Ainda não sei o resultado dos meus alunos, mas os feedbacks que recebi foram emocionados. A mensagem tocou numa ferida. Se aquele texto, nascido de uma noite de insônia diante de um mar agitado, trouxe algum alento para eles na hora do teste, então já cumpriu sua missão.
E isso me fez entender a grande lição daquela noite. O que aprendi, ali, sozinho no quarto de hotel, é que ignorar os fantasmas não os faz desaparecer. Eles só perdem a força quando você os encara.

Então, talvez essa seja a estratégia. Na próxima vez que você se encontrar nessa noite escura que antecede a sua grande prova — seja ela qual for —, não lute em silêncio. Pegue um papel, um bloco de notas ou as notas do celular. Dê nome aos seus medos. Escreva-os, um por um.
E para cada um, responda com a sua verdade. Lembre a si mesmo do quanto treinou, do caminho que percorreu, dos obstáculos que já venceu.

Dialogue com seus fantasmas. Você pode se surpreender ao descobrir que a sua voz, a voz da sua jornada, é muito mais alta e forte que a deles.
Boas provas!
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